sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Porcarias e suas histórias

Ando de trem todo dia para vir à UERJ e lá sempre vejo as pessoas jogando lixo no chão, mesmo quando estão ao lado de uma lixeira.
Infelizmente, coisas desse tipo não são exclusividade do trem. Basta andar pelas ruas do Rio de Janeiro para perceber que as belezas naturais e arquitetônicas coexistem com a porcaria.
Outro dia, fiquei abismada ao ver uma reportagem sobre o sul, mostrando ser essa região limpa por"influência da herança deixada por italianos e alemães". Ou seja, os africanos e portugueses, principal origem da cultura carioca, são porcos?
Essa lógica de inferiorização do português em relação ao povo europeu é recorrente, tanto que ao imaginar um europeu, certamente não vamos pensar em um português. A relação estabelecida no imaginário brasileiro de que africano e pocilga se atraem também é algo comum. O próprio presidente Lula, em uma de suas gafes corriqueiras, disse ao chegar em Angola, que era um país tão limpo que" nem parecia a África".
A questão é: se o Rio herda sua cultura de africanos e portugueses e, levando-se em consideração que tanto África quanto Portugal são limpos, por que as pessoas jogam tanto lixo na rua?
Fiquei algum tempo pensando nessa questão e através de conversas com cariocas e sulistas e de muita observação, cheguei à conclusão de que a relação estabelecida entre si e o público é completamente diferente para ambos.
Enquanto o sulista cuida do público por ser este patrimônio de todos, o carioca tem total displicência em relação ao público, não só por considerá-lo patrimônio de ninguém, como principalmente por não se considerar um dos donos.
Pode ser que eu esteja viajando na maionese, mas sinceramente acho que faz sentido. Isso poderia explicar inclusive o porquê de as repartições públicas do sul funcionarem (no geral) melhor que as do Rio.
Bem, é sempre mais fácil enxergar as conseqüências, mas e as causas dessa diferença de visão? Se quero defender essa teoria, tenho de, ao menos, tentar mostrá-las.
Acho que a grande questão não é quem foi para onde, mas sim de que forma foi. A ocupação do Rio de Janeiro é bem anterior à do sul, e foi feita por portugueses ou expulsos de Portugal ou por portugueses fugindo ( na maior parte das vezes à contra-gosto) para cá. Logo depois, vieram os africanos trazidos como escravos. Agora pense, que tipo de afeição teria uma pessoa por uma terra distante da sua, para a qual foi obrigado a vir? Ou por uma terra na qual é escravizado? Se a sua resposta é nenhuma, estamos na mesma linha de raciocínio.
Já o sul foi realmente ocupado por colonos alemães e italianos que conseguiram lá suas próprias terras com o dinheiro adquirido na lavoura. É lógico que eles criaram mais afeiçaõ pela terra, já que ela era sua.
E para completar meu raciocínio, as duas mentalidades foram herdadas pelos filhos, netos, bisnetos até chegar nos dias de hoje.
Acho que minha teoria pode também ser confirmada ao percebermos que essas pessoas que jogam lixo na rua,mantêm quase sempre suas casas limpas. Isso prova que a questão não é porcaria, mas sim consciência.
Obs: 1º- não quis ofender os cariocas(eu sou carioca)
2º-ultimamente tenho observado mais gente jogando lixo na lixeira e levando saco plástico para catar o cocô do cachorro
3º-acredito que através de educação essa mentalidade pode mudar
4º- aceito críticas
5º- não falei dos índios, porque a maioria foi dizimada antes da formação da cultura carioca
6º- não sou estudante de História

Um comentário:

Escolinha da tia Cotinha disse...

A sujeira na via pública não é privilégio da cidade do Rio e tem origens diversas (eu acho). Não vale a pena dizer que esta é uma cidade antiga, outras são e não são imundas. Tem sim essa questão das mentalidades: cidades como Porto Alegre e Florianópolis foram povoadas por casais vindos de Portugal e dos Açores, portanto as relações sociais no espaço da urbe serão diversas do Rio (para cá vieram mais homens que mulheres, muito por ser uma cidade portuária, aí vão se estabelecer outros tipos de relação no ambiente social).
Talvez essa mobilização, até em escala mundial, contra a poluição do ambiente vá amenizar um pouco o problemma, mas vai levar tempo, uns 20 anos ou mais, talvez. Até lá, é cada um tentar fazer a sua parte, cuidar não só dessa cidade que os gringos gostam e aparece em cartões postais, mas onde moramos, trabalhamos e estudamos.